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Cinefantasy 11 – Mostra Brasil Fantástico

O cinema fantástico brasileiro é muito rico com obras de suma importância e no festival de cinema é a oportunidade de novas obras serem consumidas e apreciadas, além de estreitar as fronteiras entre estados e possibilitar que conheçamos mais o Brasil e a sua cultura cinematográfica. Por isso, não pude deixar de comentar também sobre os curtas que formaram a Mostra Brasil Fantástico, já que o trabalho de cineastas brasileiros precisa ser compartilhado, comentado e assistido.

 

A mostra é diversa não somente em questões de generalização, mas também em formatos e linguagem cinematográfica, como já havia comentado na Mostra Amador, aqui também senti a recorrência de curtas que flertam com o filme experimental e o ensaio, além da temática pandemia estar presente em boa parte dos filmes. Pode ser que vejamos essa temática perdurar por uns bons anos na produção de cinema brasileiro e mundial, já que ela afeta pessoas diferentes de formas diferentes e o cinema é apenas uma das diversas formas de expressar o sentimento das dificuldades que passamos em um período tão trágico e caótico da nossa história.

 

 

Um elemento bonito no cinema brasileiro é a “contação de causo”, pelo Brasil contar com uma população tão diversa isso foi refletido também nos curtas, já que todos eles carregam uma carga regional da área onde foram produzidos, principalmente na escolha das histórias que seriam contadas em cada um deles. Acho que regionalidade é a melhor palavra para definir o sentimento que essa mostra me passou, algo que cumpre um objetivo essencial na curadoria de uma mostra como essa, por isso atribuo este sentimento a um acerto imenso na escolha dos filmes para essa exibição.

 

Como fiz nos textos anteriores, gostaria de mencionar aqui os meus preferidos. Primeiro gostaria de indicar o curta-metragem “Nu Escuru” (dir. Guilherme Telli) uma releitura engraçada do clássico do expressionismo alemão Nosferatu de F.W. Murnau, mas que não deixa de tecer um comentário ácido sobre a atual conjuntura política durante a pandemia. “O Bálido Interno” (dir. Elder Déo) tem uma fotografia linda e uma narrativa extremamente angustiante, ele toca em temas sensíveis como a intolerância religiosa e a hipocrisia de muitos que pregam o “amor” através do ódio, a personagem principal e o seu bode de estimação conquistaram toda a minha empatia. “Mãtãnãg, a encantada” (dir. Shawara Maxakali, Charles Bicalho) também precisa ser assistido, trata-se de uma animação que conta a história de uma lenda tradicional do povo Maxacali e suas ilustrações foram fruto de uma oficina em Aldeia Verde, no município de Ladainha, em Minas Gerais.

 

O décimo primeiro Cinefantasy acontece até o dia 29 de abril e você pode assistir a estes curtas na plataforma Petra Belas Artes À La Carte: https://www.belasartesalacarte.com.br/?_ga=2.4184627.2058356738.1619457304-387941430.1619457304.

 


Cinefantasy 11 – Mostra Horror

Uma das mostras do Cinefantasy que fiz questão de conferir foi a de curtas de horror, como não é novidade para ninguém é o gênero que consumo, pesquiso e respiro, por isso festivais de cinema de gênero são sempre uma oportunidade para conhecer novas abordagens de antigos temas que circundam a produção de um gênero mundialmente. Inclusive, foi o que pude notar desta mostra em específico, ela abrange diversas criaturas que já são presença marcada em filmes de terror de todos os tipos, orçamentos e nacionalidades, mas, na maioria dos casos, os curtas adaptam para o período em que vivemos, a sociedade em que a direção e roteirista se inserem ou questões sociais que são pauta dos tempos contemporâneos.

 

A diversidade da mostra é um de seus pontos fortes, pois nela temos filmes dos EUA, Holanda, Argentina, República Tcheca, França, Nova Zelândia e Brasil. Dentre essa mistura de nações há a presença de vampiros, lobisomens, criança psicopata, alienígena invasor de corpos, psicopatas oníricos, fantasmas e um monstro totalmente novo que flerta com os elementos do body horror e o filme de herói. Para incrementar essa mistura acrescente temas sociais e políticos extremamente relevantes e que conseguem ser potentes quando bem utilizados no cinema fantástico como a misoginia e abusos familiares, outros mais subjetivos como a tensão pré procedimentos cirúrgicos.

 

 

Entretanto, o tema que mais recorrente da mostra são os relacionados à gênero e o machismo que as mulheres enfrentam em diversos setores da sociedade, como abusos no metrô, assédio sexual e moral em locais onde há mais homens e também descrédito profissional pelo gênero. É uma mostra que atinge o grande potencial do cinema, principalmente o fantástico, de discutir e escancarar através de imagens a sociedade cheia de buracos em que vivemos, e nada mais agressivo que usar o horror como dispositivo de denúncia.

 

Gostaria de recomendar os meus preferidos e tecer um breve comentário sobre cada um. Começando por “Snake Dick” (dir. David Mahmoudieh), ele é um dos filmes que aborda o machismo ao apresentar duas mulheres que são assediadas em um posto à beira de estrada que pararam após o carro quebrar, entretanto, antes que o assédio se torne físico, ambas ameaçam os seus assediadores, primeiro com armas de fogo e depois com poderes sobrenaturais que as duas possuem. O que me fez gostar deste curta são os diálogos e como a personagem principal ameaça um dos homens que está importunando ela, o medo que ele sente reflete a covardia desse tipo de homem. “O Matar de uma Criança” (dir. Kim Kokosky Deforchaux) é o segundo filme que eu gostaria de indicar, é um filme denso com imagens lindíssimas, os personagens principal não falam uma palavra mas a expressão em seus semblantes é o suficiente para construirmos uma narrativa bastante infantil e com alguma ternura, mas que termina deprimente. Por último, “Minimamente Invasivo” (dir. Adam Harvey) é um curta que mistura o horror e a comédia brilhantemente, um paciente dopado antes de uma cirurgia começa a perceber uma movimentação estranha dos médicos que estão o operando, e todo este processo é engraçado ao mesmo tempo que é horroroso, vale a pena conferir, um filme com uma ideia genial. “Caninos” (Abel Danan) e “Juntos” (dir. Neal Dhand) são dois filmes que abordam relações familiares utilizando vampiros que também são bastante instigantes.

 

O décimo primeiro Cinefantasy acontece até o dia 29 de abril e você pode assistir a estes curtas na plataforma Petra Belas Artes À La Carte: https://www.belasartesalacarte.com.br/?_ga=2.4184627.2058356738.1619457304-387941430.1619457304.


Cinefantasy 11 – Mostra de Curtas Amador

Uma das maiores importâncias dos festivais de cinema é o espaço que eles proporcionam para a exibição de filmes que jamais seriam vistos no circuito comercial. Tal característica abre portas para novos realizadores exibirem seus projetos e outros que mesmo fazendo filmes regularmente continuam independentes de grandes produtoras. Ou seja, há uma função social importantíssima no festival de cinema que é a democratização do acesso à cultura, tanto dando oportunidades para novas pessoas se aventurarem com realização quanto para os espectadores que podem assistir a filmes de diversos estilos, que jamais veriam em multiplexes, com temáticas variadas, e em muitos casos politicamente relevantes, por valores simbólicos e acessíveis.

 

Com isso em mente, o festival Cinefantasy em sua décima primeira edição diversificou ainda mais as mostras de longas e curtas, criando novas categorias (de cinema fantástico), e uma delas ressalta a importância do festival como uma oportunidade para novos realizadores, que é a mostra amadora de curtas. É muito comum quando se faz filmes, sentir insegurança de mostrar o filme para as pessoas e enviar para festivais, sempre há a impressão de que o que fazemos não é o suficiente e acreditar que a grama do vizinho sempre é mais verde, ainda mais quando estamos começando a filmar e fazemos os primeiros curtas com quase nada de recursos, sobrando apenas a criatividade como combustível para a construção de um roteiro que terminará em uma produção independente. Por isso a importância de uma mostra que prestigia o cinema amador, ao termos essa opção, há uma segurança de que podemos enviar para um grande festival e que talvez o filme seja exibido com grandes chances de despontar novos nomes e talentos para futuras obras.

 

“Cinema Amador” não é um termo pejorativo, pelo contrário ele significa exatamente o que seu próprio nome diz, são filmes de novos realizadores que possuem, na maioria dos casos, ideias muito criativas, algum conhecimento sobre como fazer um filme e uma vontade de se expressar através da linguagem cinematográfica, mas precisam começar de algum jeito e em diversos casos temos filmes muito fora do convencional estético estabelecido pela grande indústria, mas que possuem conteúdos únicos e visões de mundo singulares.

 

 

O que afirmo acima é exatamente o que reflete a seleção de filmes desta mostra, que teve curadoria feita pelo nosso queridíssimo host deste podcast e criador do site Euller Félix. São treze filmes no total, bem diversificados e com escolhas narrativas e estéticas diferentes entre si. Pude notar uma recorrência de filmes que se baseiam em um cinema mais ensaístico e subjetivo, acredito que seja pelos tempos de isolamento e pandemia em que vivemos, mas também por ser uma maneira de se expressar através do cinema que não requer equipes muito grandes e muito dinheiro para a sua realização, tendo uma carga mais intimista, mas que não deixam de ter mensagens fortes e serem filmes bastante potentes, é uma questão maior de sentir e tentar entender o que o autor ou a autora quis transmitir de si mesma do que se aventurar em uma história pautada por um gênero cinematográfico e suas fórmulas.

 

Há também filmes narrativos e a parte mais divertida de se assistir a uma mostra de filmes amadores é tentar perceber quais foram as alternativas adotadas por seus realizadores para driblar o baixo orçamento de seus filmes e o quão criativo seriam as propostas estéticas para que houvesse esse drible. Esta mostra não decepciona quanto a isso pois, alguns filmes recorrem à técnicas do cinema silencioso e sem cores, outros ao cinema experimental com o uso de imagens estáticas e sobreposição de efeitos com voice over. Enfim, é divertidíssimo e encantador acompanhar o esforço que estes cineastas tiveram ao fazer esses filmes, e fico, pessoalmente, muito feliz de haver essa mostra no Cinefantasy, pois, como possuo um lado realizador, consigo me identificar com esses esforços do audiovisual independente, não posso deixar de parabenizar ao Cinefantasy por essa preocupação com o cinema amador, que tem esse nome por causa do que expliquei anteriormente, mas que não deixa a desejar em nada, já que, é possível analisar o quão competente é o nosso circuito de cineastas independentes.

 

Para finalizar gostaria de recomendar os meus favoritos da mostra para que vocês assistam. Começando por “À Beira do Gatilho” (dir. Lucas Martins), um dos filmes que investem no cinema de gênero, neste caso o filme policial, e cria uma atmosfera instigante com uma narrativa bastante atrativa. “Assolado” (dir. Renan de Andrade), um dos filmes que comentei que se insere na estética do filme ensaio, tem uma mensagem dura porém verdadeira do período de pandemia em que vivemos aqui no Brasil. “Néctar” (dir. Renato Yuji), flerta com o experimental e conduz uma narrativa com imagens muito criativas e diversas técnicas com imagens estáticas, filtros e uma fotografia que esbanja ternura, não deixando de contar uma história bastante pautada no folclore com um fundo de tristeza. Por fim, “O Grito das Sombras” (dir. Caroline Bertelli) é uma ode ao primeiro cinema e tem uma das atrizes mais fofas de todo o festival que é a senhora que interpreta a bruxa, o filme conta com elementos do horror, do cinema silencioso e também uma estética de filme caseiro que é transmitida pelos ambientes familiares.

 

O décimo primeiro Cinefantasy acontece até o dia 29 de abril e você pode assistir a estes curtas na plataforma Petra Belas Artes À La Carte: https://www.belasartesalacarte.com.br/?_ga=2.4184627.2058356738.1619457304-387941430.1619457304.


Darkflix apresenta o “Especial John Carpenter” com seleção de grandes filmes do diretor

Nesta semana, a Darkflix traz aos seus assinantes o “Especial John Carpenter”. A plataforma apresentará filmes que fazem parte da carreira de um dos diretores mais renomados do cinema de horror.

O cineasta, que completou 73 anos recentemente, é referência entre realizadores, críticos e cinéfilos por suas obras, que além de filmes clássicos e cultuados como “Halloween – A Noite do Terror”, “Christine, O Carro Assassino” e “Eles Vivem”, incluem várias composições de trilhas sonoras – foram mais de 60 produções ao longo da carreira.

Carpenter iniciou a carreira no cinema dirigindo filmes de horror e de temática sobrenatural. Após conquistar grande sucesso, o diretor foi considerado um grande realizador, cujo cinema complexo vai muito além dos gêneros em que atua. Seu trabalho é analisado e discutido até hoje por críticos renomados e veículos conceituados que reconhecem o seu talento e a importância de seus filmes para o universo cinematográfico.

O criativo realizador, que continua na ativa, lança nesta próxima sexta-feira (05) seu novo álbum musical, “Lost Themes III: Alive After Death”. Tal como nos anteriores, o terceiro volume teve a colaboração de seu filho Cody e do guitarrista Daniel Davies. Recentemente, o diretor também anunciou que levará o seu talento e expertise para o mundo dos podcasts com o programa “John Carpenter Presents”, onde contará histórias de terror envolventes contadas em capítulos.

Enquanto aguardamos as novidades deste profissional multifacetado, a Darkflix homenageia o mestre do terror com uma seleção especial de longas que marcaram o cinema, seja pelo pioneirismo, pela criatividade ou pelo sucesso junto aos fãs. Confira as obras programadas para esta semana. E se prepare, pois, mais filmes de Carpenter devem compor o especial que se estende na próxima semana!

 

Eles Vivem (They Live), 1988 – 01/fevereiro

Em “Eles Vivem”, Carpenter procura apresentar a realidade alienada dos Estados Unidos através de símbolos que retratam o patriotismo e o controle estatal exercido nos anos 1980, período em que Reagan governava o pais com certo autoritarismo. Na trama, acompanhamos John Nada, um trabalhador que troca o interior do Colorado pela cidade grande em busca de emprego. Sem opções, Nada vai morar e trabalhar numa área marginalizada da cidade, onde minorias tentam sobreviver. Certo dia, o personagem encontra um peculiar par de óculos escuros, ao usá-lo, passa a enxergar o mundo como ele realmente é, as verdadeiras mensagens subliminares da publicidade, e o mais importante, pessoas que aparentam ser alienígenas e querem dominar o mundo. Além de uma sátira, a obra retrata o desejo do cineasta por uma transformação.

Alguém me Vigia (Someone’s Watching Me!), 1978 – 02/fevereiro

O longa “Alguém me Vigia”, foi produzido para a TV e talvez seja, injustamente, um dos trabalhos menos conhecidos de Carpenter. Neste thriller, Leigh Michaels, uma jornalista bem-sucedida, se muda para Los Angeles para trabalhar em uma nova rede de televisão e deixar para traz uma história de amor não correspondida. Logo após se instalar em seu novo apartamento, ela sente que está sendo vigiada sistematicamente. Sem ninguém que acredite em sua história, Leigh se vê sozinha em uma situação perturbadora quando um estranho começa persegui-la com jogos de gato e rato.

Dark Star (Dark Star), 1974 – 03/fevereiro

“Dark Star” é o filme de estreia de Carpenter e do grande roteirista Dan O’Bannon. Inicialmente foi produzido como um curta, mas com a repercussão positiva em festivais onde foi exibido, ganhou cenas adicionais. O longa se passa em 2150. A pequena tripulação de astronautas americanos da espaçonave Dark Star tem a missão de destruir planetas instáveis. Eles contam com o auxílio de um computador de bordo – uma referência ao HAL 9000 de “2001: Uma Odisseia no Espaço”- mas após 20 anos no espaço algumas coisas já não funcionam como deveriam e o tripulantes terão que lidar com situações perigosas. A obra flerta abertamente com o humor e se tornou um clássico dos anos 1970.

O filme ganhou o Golden Scroll de melhores efeitos especiais no Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films, USA, em 1976. Também foi indicado ao Nebula Award de melhor roteiro pelo Science Fiction and Fantasy Writers of America, e ao Hugo Awards como melhor filme.

Memórias de um Homem Invisível (Memoirs of an Invisible Man), 1992 – 04/fevereiro

Estrelada pelo hilário Chevy Chase, a jovem Daryl Hannah e o ator irlandês Sam Neill, “Memórias de Um Homem Invisível” conta com pitadas de humor a história de Nick Halloway, um especialista da bolsa de valores que sofre um acidente e se transforma em um homem invisível. A partir disso Halloway passa a ser perseguido pela CIA que deseja usar a situação a seu favor. Ele fará de tudo para fugir do agente David Jenkins a fim de resgatar sua vida e se encontrar com a femme fatale vivida por Darryl Hannah.

A Bruma Assassina (The Fog), 1980 – 05/fevereiro

Considerada uma das grandes obras do cinema, “A Bruma Assassina” contou com um orçamento estimado em US$ 1 milhão e faturou mais de US$ 20 milhões apenas nas bilheterias dos EUA. O roteiro foi escrito por Carpenter e Debra Hill, co-escritora e produtora de Halloween, e foca no desenvolvimento dos personagens por núcleo, o que facilita o desenrolar da história. Com participação de Jamie Lee Curtis, Janet Leigh e Tom Atkins, a trama aborda o pânico que se espalha pela cidade costeira de Antônio Bay depois que uma névoa misteriosa aparece no ar. O evento sinistro acontece há exatos cem anos após uma tragédia marítima que ocorreu no mesmo local.

Halloween – A Noite do Terror (Halloween), 1978 – 06/fevereiro

“Halloween: A Noite do Terror” é um dos filmes de maior sucesso da cena independente americana. O longa marcou época, não apenas pela grande bilheteria, mas por lançar a atriz Jamie Lee Curtis e Carpenter ao estrelato, além de abrir caminho para uma leva de filmes slashers que foram lançados nos anos seguintes, como “Sexta-feira 13”, “A Hora do Pesadelo”, “Pânico” e tantos outros.

Na trama, que privilegia o suspense e o clima de tensão mais do que vísceras e sangue, acompanhamos um menino de apenas seis anos ser enviado para um hospital psiquiátrico após esfaquear e matar a sua irmã mais velha no dia das Bruxas. Quinze anos se passam, e na noite de Halloween, o assassino foge da instituição rumo a sua cidade Natal, Haddonfield, em Illinois. Ainda obcecado pelo assassinato da irmã, Michael Myers, agora com 21 anos, escolhe um novo alvo: a estudante Laurie Strode, interpretada pela jovem Jamie Lee Curtis, que precisa lidar com o medo e a paranoia de ser perseguida por um desconhecido sem saber o real motivo.

Christine – O Carro Assassino (Christine), 1983 – 07/fevereiro

“Christine – O Carro Assassino” marca o encontro de dois grandes nomes do horror: o fenômeno editorial Stephen King e o mestre John Carpenter. A adaptação fiel ao livro conta a história de Arnie Cunningham, um jovem nerd e tímido que compra um sucateado Plymouth Fury 1958, batizado de Christine pelo antigo dono. Após renovar o veículo, a personalidade do rapaz se transforma e ele desenvolve uma obsessão pelo veículo que parece ter personalidade e vontade própria e não permite que ninguém fique entre eles. Com uma direção extremamente competente, excelente ambientação e ótima trilha sonora, o clássico apresenta temas típicos do universo de King, como possessão, vingança, dramas adolescentes e familiares.

 

Opinião do Matheus: John Carpenter é um dos melhores diretores e produtores que trabalhou em Hollywood e que ainda está na ativa, por isso recomendo demais aproveitar esta homenagem da Darkflix ao Carpenter, lembrando que o serviço de streaming oferece, além de eventos como esse, um extenso catálogo por R$9,99.

Um outro lembrete para quem assistir ao They Live (1988), que temos um episódio sobre o filme na casa, segue o link: https://necronomiconversa.com/72-eles-vivem/


Rebecca, A Mulher Inesquecível e o remake irrelevante

No episódio 61 do Necronomiconversa, onde falamos do filme Rebecca, a Mulher Inesquecível, dirigido por ninguém mais que Alfred Hitchcock, eu fiz algumas previsões negativas quanto ao remake de Rebecca, e comentei que não estava nem um pouco animado para o filme. Ainda no episódio, prometi que faria a crítica do filme no site, assim que ele saísse, muito que bem, como promessa é dívida aqui estou para falar do remake de Rebecca, um dos meus filmes preferidos do Hitchcock, agora com uma nova roupagem dirigida por Ben Weathley e estrelando Lily James e Armie Hammer, como Mrs. de Winter e Max de Winter, respectivamente.

A refeitura de Rebecca não é um filme ruim, entretanto é um filme sem graça, muito distante em termos de qualidade fílmica e estética do original dirigido por Hitchcock, o que deixa a obra muito apagada em relação à sua versão anterior. Falta na narrativa uma condução diretorial que entregue o suspense que vemos no filme de 1940, que dá todo o tom deste romance obscuro. Narrativa em que há um fantasma que não aparece, e está presente apenas no imaginário dos personagens, que construíam Rebecca de forma tão descritiva e assustadoramente real, o que não acontece nesta nova abordagem.

Falando em filme de assombração sem assombração, como eu aponto durante o episódio, aqui Rebecca precisou ser mostrada, mesmo que não por completo, mas por meio de uma estética onírica que levava a senhora de Winter à uma alucinação com a ex-esposa de seu marido que passeia como um fantasma pelo baile, momento clássico e importantíssimo para a narrativa. Tal sequência é totalmente desnecessária, que denota essa conveniência de filmes atuais em expor demasiadamente para explicar, mesmo que Rebecca seja só mostrada de costas vestindo um vestido vermelho e possuindo longos cabelos pretos. No original apenas a descrição feita pelos personagens da trama bastava para criarmos a imagem de Rebecca em nossas mentes, e através de seus relatos, a ex-esposa de Maxim estava mais presente e visualmente viva do que nunca.

Não havia necessidade de se sustentar em uma criação clichê de aparição para mostrar o quão perturbada está a senhora de Winter, já que o grande acerto da primeira adaptação de Rebecca são suas sutilezas, e Hitchcock deixa nas mãos da, excelente atriz, Joan Fontaine para mostrar sua perturbação quanto a presença, quase que espectral, de Rebecca na vida daqueles que agora ela precisava conquistar.

O filme tem qualidades, uma delas é a composição belíssima de planos aliada ao excelente trabalho de uma direção de arte competente que trouxe no figurino e construção de set o aviso de como os detalhes são importantes para a imersão do espectador e ressaltar a época em que se passa a narrativa, a classe social dos personagens, suas características psicológicas, entre outros detalhes que às vezes passam despercebidos por nossos olhos, mas são muito importantes para a criação daquele universo fílmico que a produção propõe, não tem como não dizer que o filme é lindo imageticamente. A atuação de Lily James também é um ponto positivo, a atriz se esforça, e a forma como a personagem da senhora de Winter se sente é crível e de certo modo tive empatia com a personagem.

Rebecca, uma Mulher Inesquecível versão da Netflix sofreu do mesmo problema que a senhora de Winter, o remake também possui um alguém notável do passado do qual serve como uma assombração e um ponto de referência comparativa. Entretanto, enquanto a senhora de Winter consegue se superar e mostrar que é tão extraordinária quanto Rebecca com suas próprias particularidades, o remake falha e não consegue superar o seu passado, nem mesmo ser relevante, tornando-se mais um filme esquecível do catálogo da Netflix. Acredito que remakes podem sim ser bons, e não precisam ser melhores que os originais, mas o bom remake precisa ser tão relevante quanto o original e trazer novos ares para uma narrativa que de certa forma representa uma narrativa em uma época diferente, infelizmente essa nova versão de Rebecca não se justifica, nem mesmo atualiza o enredo, por isso, o original, de Hitchcock, continua sendo a única adaptação relevante do romance homônimo de Daphne Du Maurier.


Mau Olhado – A tradição contra maldição

No Halloween deste ano a Amazon Prime e a produtora Blumhouse, famosa por produções de horror como Corra! (2017), A Morte te dá parabéns (2017) e O Homem Invisível (2020), fizeram uma parceria para lançar quatro filmes do gênero na plataforma de streaming. Hoje vamos falar de Mau-Olhado ou Evil Eye, dos diretores Elan Dassani e Rajeev Dassani, um dos filmes que fazem parte do pacote de filmes desta colaboração entre as duas empresas.

O filme possui alguns planos de fundo que alimentam a sua trama, uma mãe que acredita que o namorado da filha é a reencarnação de um ex-namorado que tentou matá-la anos atrás. Um destes planos é o conflito entre gerações bem delineado logo no início da obra, costumes tradicionais são colocados em paralelo a todo momento com a modernidade, e isso é exposto através da relação mãe e filha, personagens principais da trama.

O tradicional por exemplo, é mostrado através da mãe, Usha, que busca incessantemente um casamento para sua filha, Pallavi, já que na cultura indiana, o casamento é uma tradição sagrada, que concede status social para os noivos, e o fato de Pallavi já ter 29 anos, morar nos Estados Unidos e ainda ser solteira, faz com que Usha fique temerosa que sua filha esteja amaldiçoada. Medo que só é acentuado ao ver as filhas de amigas e parentes casando-se em uniões arranjadas, deixando Pallavi para trás na fila de casamentos.

Mesmo que Usha represente o lado da tradição do filme, é interessante notar os intercâmbios ou até mesmo a colonização cultural do mundo moderno através da importação de produtos e marcas que envolvem o ambiente digital, pois a personagem fala com sua filha por um Iphone, faz chamadas de vídeo pelo Skype e isso fica cada vez mais evidente na trama, tendo um ápice através do diálogo entre outros personagens durante um casamento bem tradicional indiano, e o pai de um dos noivos diz que eles haviam se conhecido através do Skype e aplicativos de encontro.

Já Pallavi representa essa quebra das tradições, pois ela, no início do filme, demonstra querer uma independência, estando preocupada com o trabalho e sua ascensão social  através dele, deixando a vida amorosa para segundo plano. Entretanto, vemos que ela nutre um respeito pela mãe e é estabelecido um conflito interno na personagem, que mesmo estando atrás de uma independência, possui um receio de decepcionar a mãe e sente uma necessidade de se provar para os pais.

Estes conflitos são ainda acentuados pela discussão, muito recente e importante, sobre relacionamentos abusivos, pois, ainda que Usha queira que a filha se case, ela se preocupa com o tipo de homem que entrará no caminho da filha, já que ela havia previamente sofrido nas mãos de um abusador, por isso ela reforça que mesmo querendo que a filha se case, ela precisa se impor e ter sua independência como mulher, e não deixar ser tratada como posse. Os traumas da mãe provenientes desse relacionamento de posse e da violência sofrida, são explicitados pela forma como Usha se agarra na tradição e no exotérico, que segundo ela, Pallavi é alvo de uma maldição lançada pelo seu antigo namorado.

A narrativa então é conduzida de forma muito parecida com O Homem Invisível (2020), através de um jogo entre Usha, o espectador e os demais personagens, onde a paranóia da personagem só aumenta enquanto a trama avança e o novo namorado de Pallavi se revela, enquanto ela é desacreditada pelos demais personagens, inclusive sua filha, que justificam a perseguição dela contra o namorado da filha pelos traumas causados por seu namorado do passado.

Mau-Olhado me prendeu até o fim da trama e possui camadas de discussão de um mundo moderno que são interessantes e necessárias, como a questão do relacionamento abusivo e o conflito do tradicional e a modernidade, expressas através da relação entre mãe e filha. Infelizmente o ato final não sustenta a trama estabelecida anteriormente e não entrega totalmente o que foi proposto, caindo em alguns clichês a armadilhas do gênero, entretanto é uma produção que manteve o meu interesse e possui seus valores como filme de horror.

 


Cinefantasy – Curtas-Metragens Categoria: Horror

Mesmo com o fim da décima edição do Cinefantasy, que diga-se de passagem foi excelente, ainda temos alguns filmes a serem comentados. Durante o festival, pude assistir alguns curtas-metragens, e decidi finalizar a minha cobertura falando um pouco sobre os que estavam na categoria horror do evento.

No geral os curtas desta categoria me agradaram bastante, e a sua maneira cada um explorou abordagens que constroem as tensões psicológicas dos personagens, seja abordando problemas neurológicos ou relações desgastadas, acredito que todos conseguiram alcançar a criação de ambientes e universos de puro horror.

Começando pelo representante brasileiro, Celular, é uma aposta que reproduz os cânones do found-footage norte americano englobando alguns elementos corriqueiros do horror atual, como a adição do elemento celular. Uma maldição, que é passada para frente ao atender um celular que toca na área da frente de uma casa abandonada, ao terminar de ver o vídeo que deu origem à corrente, o curioso torna-se parte de um ciclo macabro. É interessante como a narrativa é conduzida, o que me lembrou um pouco da forma como o jogo de 2017, Resident Evil 7, explora o found-footage, ao colocar a nova vítima assistindo o destino da anterior, e também noto uma influência de canais emergentes no YouTube em que pessoas invadem casas abandonadas portando celulares e armas de airsoft.

Cinzas também segue a ideia de maldição cíclica, mas ela busca um artefato um pouco mais tradicional, diga-se de passagem, um diário com desenhos infantis sobre monstros e uma foto antiga. Este curta-metragem possui uma direção de arte impecável, além da fotografia que ajuda na criação de um ambiente de conto de fadas macabro. A maquiagem da criatura presente no filme também é um ponto alto. A narrativa é bem básica, entretanto ela combina muito com o formato curta-metragem, e cumpre a sua função de prender o espectador. Sinto que ele busca trazer um conflito entre o moderno e o tradicional também, já que uma das irmãs se perde da outra por estar distraída com o celular.

Feroz é um dos destaques, com poucos diálogos ele consegue contar uma história que também traz esse conflito de cidade x natureza, civilização x selvagem e sem muitas explicações ele causa um impacto muito grande através das imagens. Destaque para a direção de fotografia que consegue alcançar planos esteticamente muito bonitos e enquadramentos que dão conta de preencher o silêncio e contar a história do filme visualmente. O final é realmente uma mistura de assustador com uma delicadeza bastante singela, essa mistura de sentimentos causada pela sequência final é um dos pontos altos desse filme.

Seguidores, o meu preferido da seleção, é um dos mais sutis e ao mesmo tempo agressivos em sua posição crítica. É um curta que não deixa de explorar todos os clichês de filmes de assombração, mas é através do uso deles que a sutileza do filme é seu ponto alto, pois as aparições e acontecimentos sobrenaturais que assombram a protagonista “instagramer”, são imageticamente assustadoras e estão sempre contidas nos detalhes do frame, não precisando de recursos mais expositivos como o jump scare para gelarem a sua alma. A crítica à sociedade atual quanto a preocupação pelos likes pode ser batida, entretanto, a forma como ela é apresentada aqui e a agressividade como é feita no subtexto, por isso digo que é agressiva e sutil ao mesmo tempo, é efetiva, pois, a mensagem de às vezes os seguidores podem ser alcançados por um preço muito alto é clara, o que me fez respeitar e muito a inteligência na execução do roteiro e direção desse filme.

Simetria Perfeita é um dos curtas-metragens mais tocantes da seleção, isso pelo excelente trabalho da atriz Charlotte Lindsay Marron, que interpreta Parker, uma jovem que sofre com um transtorno obsessivo-compulsivo. O cuidado com a construção que é muito próxima da realidade de pessoas que sofrem de transtornos como esse, me fizeram simpatizar muito com a personagem principal. Talvez a imprecisão do filme seja perder um pouco este cuidado com o transtorno no final do filme, colocando-o como um poder sobrenatural, mas não é algo que prejudique totalmente os sensíveis minutos anteriores.

Limbo é um curta-metragem bastante cruel e explícito, contudo, esta forma como ele trata o tema de uma família que sofre com um pai opressivo não é desnecessária, ela torna a mensagem bastante potente e talvez um pouco pessimista sobre os rumos da humanidade, mas é inegável que é um curta que se faz pensar, ainda mais em tempos como estes que vivemos. Acho que não há muito a dizer mais sobre este filme, além de que ele precisa ser assistido, salvo o aviso pelas imagens fortes que ele possui, e como o psicológico dos personagens e aquele universo de violência são tão bem construídos em poucos minutos.

O Barbeiro é um filme que cria uma atmosfera de suspense interessante, como em um western ele transforma um duelo de pistoleiros em um duelo entre desconhecidos, mas um está sentado na cadeira de barbear e o outro barbeando, o que torna a situação ainda mais angustiante. A direção de arte é um dos pontos altos, desde a construção dos cenários até o figurino dos atores. O clima tenso é construído por uma direção de fotografia precisa e que usa os néons de uma barbearia à noite para criar uma estética de hqs, que só deixa a situação mais divertida e agradável de ser.

Wrightwood é um dos curtas que mais entendem o formato curta-metragem, pois ele se apoia em uma ideia, que não precisa ser explicada, e ele conduz essa ideia simples mas muito perturbadora durante todo o filme, o que funciona muito bem por se tratar de um curta-metragem, por isso não há tempo para que essa motivação da história sature e torne-se enfadonha.


Cinefantasy – Retrospectiva Rodrigo Aragão, Parte 3

Continuamos a nossa Retrospectiva da Filmografia de Rodrigo Aragão com os filmes que faltaram ser comentados: Mar Negro, As Fábulas Negras, Mata Negra e O Cemitério das Almas Perdidas.

Em Mar Negro lançado em 2013 é o filme onde vejo Rodrigo Aragão trazendo o caráter de cinema marginal à sua obra como comentei anteriormente, e aqui ele faz um filme bastante crítico. Seguindo com a ideia já trazida em Mangue Negro, após ser mordido por uma “sereia” o pescador Peroa se torna um zumbi começando uma epidemia em sua cidade.

O sub-texto deste filme para mim é um dos fatores mais importantes de sua composição e assistindo-o neste contexto de pandemia, o achei muito atual. Pois, mesmo antes de um apocalipse zumbi se iniciar no local, a cidade em que o filme se passa já estava com diversos problemas, como a própria escassez de peixes no mar que estava prejudicando tanto os pescadores quanto comerciantes locais. Entretanto, diante de todo esse caos e miséria instaurado, toda a atenção dos locais estava na inauguração de um novo cabaré, que seria o estopim da loucura e violência da qual o filme ia seguir na segunda metade. É interessante notar a figura do deputado Ferreira, interpretado por Coffin Souza, que aparece na cidade apenas para checar as garotas do cabaré e reforçar o seu poder de “canetada” para a dona do local Madame Ursula, ou seja, ele estava atrás do pagamento de propinas.

Vejo esse filme com um olhar muito crítico, pois todas as figuras que o compõem, além do próprio contexto narrativo ser, assustadoramente, semelhante ao momento em que passamos. Toda essa metáfora fica ainda mais direta quando Madame Ursula no meio da confusão causada pelos zumbis, estoura com os sobreviventes e desabafa dizendo que teve que “passar por generais, lidar com gente escrota” para conseguir abrir aquele lugar, pois ela queria trazer felicidade, entretenimento para aquele lugar.

Mesmo diante de todos os problemas, diante de miséria e uma epidemia de zumbis, aqueles personagens ainda estavam preocupados com o entretenimento e o que conseguiriam ganhar através daquela situação toda. O retrato, ou melhor, o espelho moderno que este filme representa, mostrando de forma nua e crua personagens não tão distantes da nossa convivência, ainda mais atual pelo contexto que vivemos, transforma esse filme em uma obra atemporal, pois parece que o Brasil de 2013 não era muito diferente do Brasil de 2020 e nada melhor que o cinema e a fantasia, a quem o diretor muito se dedica, para mostrar isso.

Além de toda essa carga crítica e política o longa conta com a adição do livro de Cipriano, item maldito recorrente da obra do diretor, demonstrando que suas obras estão interligadas formando um “Aragãoverso” do horror brasileiro.

Em 2015 nasceu As Fábulas Negras projeto idealizado por Rodrigo Aragão, um longa-metragem que reunia curtas-metragens de grandes nomes do terror brasileiro, sob a temática: Folclore Brasileiro. Os curtas-metragem são (em ordem de exibição): Crônicas do Esgoto dirigido por Rodrigo Aragão, Pampa Feroz dirigido por Petter Baiestorf, O Saci dirigido pelo grande mestre do horror brasileiro José Mojica Marins, Loira do Banheiro dirigido por Joel Caetano e finalizando com Casa de Iara dirigido novamente pelo Rodrigo Aragão. As Fábulas Negras torna-se um registro ainda mais importante e emocionante, pois trata-se de um dos últimos filmes em que José Mojica Marins atua como diretor, e em um filme junto de outros diretores que foram influenciados por ele.

Adaptar o folclore brasileiro permite a abertura de um leque de possibilidades e inovações no cinema fantástico, e esta é a posição que As Fábulas Negras toma, uma antologia muito competente e criativa que explora o substrato de um imaginário popular brasileiro, reunindo grandes mentes que produzem e escrevem horror no país. A antologia também respeita o cânone de Aragão, já que é idealizada por ele, com algumas críticas sociais, fanatismo religioso e com um exagero estético na violência que tornou-se recorrente em sua filmografia.

Inclusive eu escrevi um texto no começo do ano mais completo sobre As Fábulas Negras, com um parágrafo para cada curta-metragem presente no longa, se tiver curiosidade de conhecer um pouco mais do projeto, é só acessar minha crítica: https://necronomiconversa.com/fabulas-negras-2014-uma-uniao-de-grande-diretores-do-cinema-brasileiro/


Em 2018 estreou o último filme da trilogia composta por Mangue Negro e Mar Negro, Mata Negra conta a história da protagonista Clara, interpretada por Carol Aragão, filha de Rodrigo Aragão e atriz recorrente em seus filmes, que encontra o livro de Cipriano e por causa desse achado a morte começa a seguir os passos da personagem e daqueles que a conhecem.

Introduzido em Mar Negro, aqui o livro de Cipriano começa a tomar seu protagonismo em uma fábula que chega a quase ser um conto de fadas macabro. A personagem evoca forças que mal conhece a fim de tentar conseguir algum dinheiro para melhorar de vida, junto com seu pai adotivo. O teor crítico já conhecido em sua obra volta, desta vez tem como alvo o fanatismo religioso e a violência ocorrida em consequência dele. Fiéis perseguem e atacam Clara, após descobrirem que ela estava em posse de um livro e fazendo rituais. O ponto mais sarcástico e que me agrada, é como o diretor ressalta que os “homens de bem” ou que pregam a palavra do Senhor, são mais perigosos do que aqueles julgados por eles, em muitos casos, eles mesmo podem ter seu pacto com o diabo e usam a ignorância e a fé das pessoas contra elas mesmas para alcançar os seus desejos terrenos.

É interessante notar como Rodrigo Aragão evolui durante sua filmografia, pois, Mar Negro possui uma trama bem mais complexa da vista em Mangue Negro por exemplo, além do aprimoramento das técnicas de direção tanto em condução de narrativa quanto na direção de atores. O aspecto auto-irônico e do exagero pelo humor macabro sinto que ficam para trás, sendo substituído por um tom mais sério e angustiante.

Por fim, a grande estréia da décima edição do Cinefantasy O Cemitério das Almas Perdidas é a prova de que cinema é construção e de como Rodrigo Aragão é um grande contribuidor para o cinema fantástico de nosso país. É impressionante que mesmo com um orçamento mais robusto do que seus filmes anteriores, a criatividade ainda é sua principal ferramenta e ele consegue criar um filme épico totalmente brasileiro. Tudo que ele realizou até aqui culmina nesse filme, a crítica aos temas políticos e sociais, a violência exagerada, a criação de criaturas fantásticas e o cuidado com os efeitos especiais e a criação de cenário. Considero este filme uma das grandes conquistas do cinema nacional esse ano e talvez dos últimos anos.

Para saber mais sobre o filme, leia a crítica do Necronomiconversa escrita pelo Euller Félix, que pode ser encontrada no link: https://necronomiconversa.com/o-cemiterio-das-almas-perdidas/.

Portanto, a homenagem do festival Cinefantasy à obra do diretor Rodrigo Aragão nesta edição é mais do que justa, a retrospectiva de sua carreira é imperdível, pois nela vemos a evolução de um cineasta brasileiro que trabalha com poucos recursos mas mesmo assim consegue acessar mundos fantásticos através da criatividade e as ferramentas oferecidas pelo cinema, além de um retrato da realidade social brasileira feito da forma mais crua e horripilante possível, mas extremamente reflexiva e necessária. A cada filme entregue por ele, fica a expectativa para a próxima empreitada no “Aragãoverso” e a pergunta de como vamos ser amedrontados através de uma fantasia, que muitas vezes é pautada em nossa realidade.


Cinefantasy – Retrospectiva Rodrigo Aragão, Parte 2

Rodrigo Aragão tem por tradição em sua filmografia trabalhar com monstros, sendo responsável pela criação do visual das criaturas. Muitos deles são trazidos do folclore brasileiro ou então passam por uma repaginação para se adaptar às narrativas compostas nos ambientes brasileiros como citei na parte 1 desta retrospectiva.

Em 2008 o diretor lançou seu primeiro longa-metragem, intitulado como Mangue Negro o longa conseguiu ter bastante reconhecimento dentre a comunidade de fãs do gênero horror. O primeiro item que salta aos olhos, é o fato de ser um filme brasileiro sobre zumbis, um tema que foi pouco explorado na cinematografia nacional. É interessante ver como ele adiciona esta criatura ao ambiente que dá nome ao filme, o mangue. Os moradores locais começam a ficar doentes após a contaminação do mangue e consequentemente dos peixes e crustáceos que viviam no local e serviam de alimentação. Logo no primeiro filme é possível perceber a preocupação temática em tecer uma crítica, neste caso a exploração insustentável de ecossistemas por grandes empresas e a falta de empatia com a população mais pobre que depende dele para sobreviver.

A narrativa do filme pode parecer um pouco confusa no início por alternar entre diversos personagens, mas logo Luís da Machadinha interpretado por Walderrama dos Santos toma o protagonismo para si, junto de seu interesse amoroso Raquel, interpretada por Kika de Oliveira. O filme chama a atenção pela construção do ambiente que cerca os personagens principais, como as cabanas de madeira e a atenção aos detalhes que referem-se a decoração das casas que refletem os dia a dia daqueles personagens.

Dois personagens que eu particularmente gosto muito são o Agenor dos Santos, interpretado por Markus Konká, um pescador contador de história mas que conhece todo o mangue e a D. Benedita, interpretada por André Lobo, uma benzedeira que faz remédios e conhece as receitas para qualquer enfermidade, além de parecer ser a única do local que sabe a verdade sobre o que está acontecendo, muito por causa de sua vivência. Pessoalmente a D. Benedita ganha ainda mais personalidade por estar sempre oferecendo uma “sopinha de taioba” para os protagonistas.

Os zumbis mostram o esmero de Rodrigo Aragão quanto à criação de universos fantásticos e o amor que o diretor tem pelo que faz, pois, tanto a maquiagem quanto os mecatrônicos são impressionantes, e a obra se destaca por ter sido feita apenas com R$ 65.000,00, denotando como o cinema é um trabalho coletivo e o exercício da criatividade para contar uma história deve ser a principal ferramenta de um diretor.

Falando em arte coletiva grande parte do elenco dos filmes de Aragão, se repetem durante a sua filmografia, não sendo diferente em A Noite do Chupacabras lançado em 2011. O filme trata-se da rivalidade entre duas famílias, que são inimigas por causa de uma disputa de terras, a situação fica mais grave após uma criatura atacar ambas as propriedades e a guerra entre as duas voltar com mais força ainda após uma trégua, desta vez a luta é ainda mais sangrenta, o que torna o Chupacabras ainda mais violento.

É importante ressaltar que este filme possui uma criatura totalmente brasileira, criada a partir de lendas urbanas e contos populares, e o diretor pôde criar do zero sua aparência. O roteiro é um pouco mais complexo que o de seu filme anterior e o escopo maior, com cenas de tiroteio e ação, inspiradas no melhor da mistura entre horror e western.

Este filme é um pouco menos sério que Mangue Negro, trazendo um humor macabro através do exagero na representação da violência e da relação entre personagens. Outro fator importante é sobre a adição de Joel Caetano, que viria a ser o assistente de direção de Rodrigo Aragão em seus próximos filmes, como um dos protagonistas do filme, Douglas da Silva. Também temos a participação especial do diretor Petter Baiestorf, da Canibal Filmes, como Ivan Carvalho, líder da família antagonista do longa. Para finalizar, o roteiro do filme ainda adiciona outra criatura das lendas urbanas, aqui chamado de Velho do Saco, interpretado por Cristian Verardi.

 

Este é o fim da parte 2 da Retrospectiva da Filmografia de Rodrigo Aragão como parte da cobertura da décima edição do Cinefantasy. Venha conferir a terceira e última parte que será lançada na sexta-feira!


Cinefantasy – Retrospectiva Rodrigo Aragão, Parte 1

A décima edição do festival Cinefantasy teve seu início no dia 6 de setembro, e para abrir o festival houve a estréia, no cinema Drive-In do Belas Artes, do filme O Cemitério das Almas Perdidas do diretor Rodrigo Aragão, que também ficou disponível no dia 7 e 13 na plataforma “Petra Belas Artes À La Carte”. A nova edição não somente selecionou o novo filme do diretor como abertura, como também o escolheu como um dos homenageados do ano, tendo disponibilizado uma retrospectiva de sua filmografia no serviço de streaming do Belas Artes, plataforma na qual o festival está sendo realizado.

Rodrigo Aragão é um cineasta capixaba, que, segundo entrevistas cedidas na mini-série televisiva Trash! A Série, iniciou sua carreira pelo amor ao cinema fantástico que assistia quando garoto, querendo reproduzir tais obras e treinando efeitos especiais desde então, com as maquiagens da mãe e o que mais encontrava. Tal amor e comprometimento com o cinema fantástico é evidente em toda a sua filmografia, que teve seu início com curtas-metragem de baixo orçamento e foi reconhecida na estréia de seu primeiro longa-metragem, Mangue Negro, primeira parte do que seria uma trilogia de filmes.

Antes de falar sobre cada um dos filmes, que estará disponível na parte 2, que pude revisitar graças ao festival, acho importante apontar traços de sua direção que estão presentes em toda sua filmografia e que o tornam um diretor com um traço autoral e reconhecível por todos que assistem mais que um de seus filmes.

 

 

Sem exceção, todos os seus filmes contam com uma questão de brasilidade, isso se dá pela escolha da temática, dos monstros abordados, mesmo que alguns deles não façam parte do folclore brasileiro, a forma como eles são representados dão conta de “abrasileirar” criaturas como zumbis, que não são exclusividade do Brasil por exemplo. Há uma atenção muito grande nos detalhes, provavelmente devido à uma preocupação com a recepção do filme nesse sentido de nacionalizar a obra, pois a localização e cenário, a forma como os personagens são retratados, inclusive no seu modo de falar e maneirismos, não nos transportam para outro lugar que não seja o Brasil.

Um outro ponto presente é a interiorização das narrativas, que remetem muito o interior da região Sudeste brasileira, que para mim que sou do interior de São Paulo são muito reconhecíveis, me fazendo lembrar de Festa Junina em diversos momentos de seus filmes. Não é uma novidade trazer costumes brasileiros à um filme de horror, já que Mojica desde  À Meia Noite Levarei Sua Alma introduz tal estética, além da Boca do Lixo e o terrir de Ivan Cardoso que “abrasileirava” o horror internacional através da paródia. A influência destes dois diretores e de outros que já faziam filmes de terror antes de Aragão são claras em sua obra, entretanto, a regionalização de sua obra e a preocupação com esta identidade brasileira se recombina com estas influências gerando um resultado único com uma identidade própria, denotando a mão autoral que o diretor tem ao conduzir suas narrativas.

Rodrigo Aragão não representa o Brasil apenas na temática e narrativa mas também faz isso através da forma fílmica que evoca um resultado que faz uma breve homenagem ao cinema marginal, importante movimento cinematográfico no Brasil da década de 60, do qual Mojica fez parte e outros nomes importantes como Rogério Sganzerla (O Bandido da Luz Vermelha). Tais referências e inspirações expostas no filme são trazidas pelo tom de auto-ironia que o diretor imprime em suas narrativas, auto-ironia essa representada pelo humor que se dá não somente pela homenagem ao filme b de horror, mas também pela crítica política e social ácida que seus filmes trazem.

 

 

A violência expressa pelo gore e os baldes de sangue em cena misturado com as cenas de erotismo e diálogos dotados de gírias e palavrões, demonstram essa rebeldia e crítica do diretor com a política, e com os cânones de um cinema clássico, mesmo que os filmes sigam um padrão de montagem e ferramentas narrativas para conduzir o conteúdo. O caráter auto-irônico e marginal de seus filmes revelam uma consciência crítica e política de luta através da arte, que tornam seus roteiros relevantes para a época em que foram produzidos mas que também são muito atuais. Políticos depravados exploram o povo miserável e causam horrores tanto em 2008 quanto em 2020, o fanatismo religioso ainda é um problema no Brasil nesses doze anos da filmografia de Aragão, patentes militares ainda fazem mau uso de seu poder através da opressão, os problemas ambientais causam consequências catastróficas para as vidas animais e humanas mas ninguém poderoso parece ligar.

Revisitar alguns de seus filmes agora em 2020, durante uma pandemia, com o pantanal em chamas, vendo o fanatismo religioso crescer cada vez mais nas televisões, redes sociais e ambientes familiares e tornando-se cada vez mais violento e ainda acima de tudo isso poderosos no governo que incentivam o que foi dito anteriormente através de propaganda e desmontes educacionais e culturais tornou a experiência assustadora.

Assistir estes filmes demonstrou o caráter atemporal de sua obra que parece ter até o dom da premonição, mas na verdade só denota capacidade de leitura da sociedade brasileira do diretor e como abstrair o mundo ao redor em fábulas fantásticas, ao mesmo tempo que homenageia o cinema nacional também traz muita inovação a filmografia brasileira, que serve de exemplo e inspiração para muitas pessoas, assim como eu, que querem entrar no ramo de produção audiovisual, mais especificamente no filme fantástico.