Inicio

Os sons do medo

Ligia H. Villon*

 

Eu poderia começar de muitas formas a falar sobre esse tema, mas como alguém que não é crítica e sim técnica de cinema eu vou começar com a chuva. Sim, a chuva. Você que está lendo agora este texto já reparou que nos filmes de terror os raios e os trovões caiem ao mesmo tempo? Mas, que na vida real isso não é possível porque existe um pequeno delay entre eles, afinal a velocidade da luz é mais rápida do que a do som? Não? Interessante.

Bem, isso ocorre porque é uma convenção entre nós de pós-produção de som, desde que o som começou a ser inserido aos filmes, que certos efeitos, como o som do trovão causam medo. O trovão é um som grave que é mixado nas caixas subwoofer, sons graves e que surgem do nada geram medo em mamíferos, ou seja, nós.

Bem, eu poderia então citar todas as cenas, de todos os filmes com chuva do Stephen King aqui, né? It – A Coisa, A Espera de Um Milagre, Cemitério Maldito, etc.. Mas seria sem graça, pois outras coisas que usamos para dar medo além dos efeitos são as trilhas sonoras e foleys.

Trilhas em filmes de terror podem ser extremamente marcantes, mas a maioria dos filmes do Stephen King não tem um tema forte, como por exemplo, Psicose. Deixo aqui duas exceções, as duas adaptações de “Chamas da Vingança” que tem as trilhas de autoria de John Carpenter e “Um sonho de liberdade” (1995) que concorreu ao Oscar nessa categoria.

Isso nos deixa com os foleys. Foleys tem esse nome em homenagem ao radialista que percebeu que faltava algo aos sons dos filmes, ele então adicionou as técnicas de radionovelas à pós-produção. Dentro dos foleys temos as munhas, que são todos os sons de algo que é tocado por mãos. Os sons de objetos em geral. E, o mais importante aqui os drones. São sons que estão entre efeitos e trilha e são muito usados e filmes de terror em geral. Todos os filmes de King tem alguma variação de drone.

E em IT – A Coisa (2017), toda a vez que o palhaço aparece um drone mixado com uma risada estrada aparece. Além disso, o filme utiliza muito o “efeito trovão”. Sons graves para te assustar quando você não está preparado.

O último aspecto que é o mestre do medo na edição de som é o não som. Sim, o silêncio. O silêncio assim como o trovão junto com o raio, não é natural, e tudo que não é natural, incomoda, gera desconforto, e dá medo.

Momentos silenciosos, aonde o som vai aos poucos ficando mais auto e terminam num pico muito agudo de um drone bem assustador normalmente significam que, ou mostro, ou fantasma, ou assassino está bem perto do protagonista esperando para dar o bote.

Esse efeito é exatamente o oposto do “efeito trovão”, pois você está avisando o seu expectador, vai acontecer algo ruim através do som. “Vai acontecer algo ruim, você não está vendo, o personagem não está vendo, mas você sabe mesmo assim”. É o efeito cauda escorpião do som. Próxima vez que assistir a um filme de terror feche os olhos e só escute e tente perceber, quando o será o próximo susto.

Um filme que trabalha muito com o silêncio até para mostrar o isolamento que os personagens se encontram é O Iluminado (1980). Na cena em que o Danny está andando de bicicleta enquanto o pai está na maquina de escrever quase não som apenas os da bicicleta e da máquina. A falta dos demais sons ambientes além de mostrar o isolamento gera desconforto, o que por sinal precede a ocorrência de fantasmas.

O silêncio também aparece na cena no filme Carrie, A Estranha (1976), logo depois que o balde de sangue cai em cima dela e os colegas começam a rir, não ouvimos os risos só vemos, apenas depois de ouvir a voz da mãe dela em sua memória é que ouvimos o som das risadas. Assim que o som volta vem à fúria Carrie, seguida por drones e efeitos bem agudos.

Eu falei do som quando muito, o “efeito trovão”, de o som completar, o drone, e do efeito do silêncio. Mas só isso é bastante para criar um ambiente sonoro de horror e terror? A resposta é não.  Existem ainda as três níveis de edição de som. Naturalistas, subjetivo e aditivo.

Naturalista, todos os filmes usam e significa trazer verossimilhança ao filme. Em filmes de terror o nível naturalista é deixado de lado ás vezes. Subjetivo, significa que você quer usar a sua edição de som para mostrar que está dentro da cabeça do personagem, como num sonho, lembrança, alucinação ou visão, por exemplo, a cena da Carrie no baile escutando a voz da mãe.

E por último, e talvez o mais importante, o aditivo, que significa 1+1=3. Em edição quando você coloca uma imagem ela tem um valor, adicione um som e ele sozinho tem outro valor, os dois juntos formaram um terceiro valor totalmente novo.

Um exemplo prático disso é IT – a Coisa, a figura palhaço tem um significado, você pode ter medo sim ou não, o mesmo serve para o balão vermelho, mas se eu adicionar um drone assustador para qualquer uma dessas imagens, aí sim terá o valor terror.

Para finalizar, eu vou falar da cena que talvez mais me marque com som de trovão em um filme de adaptação do autor: Um Sonho de Liberdade (1994). Que não é um filme de terror. Na cena da fuga, a construção da sequência é toda uma narração em voz off e a chuva, que aqui não dá medo, muito menos o trovão. Pois o personagem se utiliza justamente do delay entre raio e trovão para fazer o buraco no cano para sua liberdade. Mas existe uma tensão tão grande e tão bem construída, que só o cinema quebrando as regras da física é capaz de fazer. Depois que ele sai os raios e trovões caiem juntos, sempre longe, na prisão, e sobe a trilha. Ou seja, o maior monstro em todas as obras de Stephen King sempre serão as pessoas.

 

* Meu nome é Lígia Helena Villon, São Bernardo do Campo – SP, sou formada em Cinema Digital e animação. Sou cineasta, roteirista, quadrinista e escritora. Além disso, Coprodutora no coletivo independente Alguma Coisa Filmes, colaboradora do Coletivo Quadrinhos do Mundo e da página Mulheres Audiovisual, cineasta independente, dirigi 6 curtas e um média metragem. Possuo história publicada pela editora Skript no quadrinho Pândega com mais outros artistas que foi ilustrada por Mazure Moganashi entre outras colaborações.


Um passeio por Stephen King

Danielle Delaneli*

Um dos motivos para Stephen King fazer tanto sucesso é sua capacidade de transformar o que é sobrenatural em realidade, mesmo com o autor deixando claro que o horror é ficcional. Impressiona o fato de sua obra atravessar gerações e conseguir ser atual e relevante. Tal sucesso deve-se a sua habilidade de compreender a mente humana e propor uma reflexão sobre a complexidade dessa mente atormentada.

O horror é uma ferramenta usada por King para explorar outros aspectos emocionais dos personagens. Através de histórias intensas que exploram medos e angústias, cria-se uma identificação no leitor fazendo com que este leitor viaje por diferentes emoções dentro de uma mesma história.             

Com uma obra imagética não foi difícil atrair cineastas interessados em adaptar suas obras para o cinema. Com isso suas histórias tornaram-se mais conhecidas pelo grande público, o que o torna um sucesso literário e também cinematográfico.                                                   

Uma bibliografia de sucesso que tornou-se uma filmografia igualmente bem-sucedida inclui O Iluminado, It: A Coisa, Carrie, Louca Obsessão, A Torre Negra, Christine, O Carro Assassino entre muitas outras obras que impactaram a cultura pop ao longo dos anos. Além desses e outras dezenas de romances, Stephen King é autor de centenas de contos de sucesso.

Com uma grande quantidade de adaptações de suas obras para as telonas, o sucesso de King foi aumentando. O que prova que a literatura é uma excelente porta de entrada para o cinema, e este, uma bela vitrine para obras literárias principalmente quando são de qualidade como as do autor.

Uma particularidade das obras de Stephen King é trazer o sobrenatural como acessório para abordar temas sociais.

Em O Iluminado, por exemplo, temos uma abordagem do alcoolismo que gera uma crise familiar. É uma obra sobre um bloqueio de autor que trata também da loucura. Jack Torrence é um homem que sonhava ser escritor mas é medíocre e acaba tornando-se frustrado e caindo no alcoolismo. Mais tarde passa a culpar a própria família por seu fracasso, isolando-se dentro do isolamento do hotel para tentar escrever.   Com o tempo passa a ter um comportamento abusivo e mergulha por vontade própria na loucura. E quanto mais percebe sua falta de talento, mais mergulha na loucura e se afasta da família. Tal atitude, que é uma escolha do personagem, somada ao sobrenatural acabam sendo gatilhos para a insanidade que podemos encarar como uma fuga da realidade. 

O perigo representado por Jack Torrence é também a alegoria de uma mente entrando em colapso, ou seja, quanto mais ameaçador ele fica, mais a mente se perde.

E se nessa obra temos o isolamento de um escritor frustrado e consumido pelo fracasso, em Misery temos uma leitora que vive isolada tendo como único sentido na vida acompanhar a trajetória de sua personagem favorita, que dá título à obra. 

A solitária Annie Wilkes tem em Misery uma fiel companheira até que, ao socorrer o criador de sua personagem favorita, tem uma grande decepção: ele pretende matá-la. A loucura de Annie, tal como a de Jack, vai crescendo, tomando conta dela e interferindo em sua vida. Aliás, no caso de Annie também é retratada a obsessão.

Enquanto em “O Iluminado” temos a impossibilidade de encarar a realidade na figura de Jack, em Misery temos a representação da obsessão que leva à loucura. Essa obsessão pode ser entendida como alegoria da busca excessiva pelo sonho americano a qualquer preço. Sonho que, no caso de Jack não foi alcançado, fazendo com que se enterrasse no isolamento. Obsessão que impede Annie de se despedir de uma personagem, representando a dificuldade que algumas pessoas têm de seguir em frente.

Até aqui vemos apenas questões da vida adulta. Porém, King também aborda a juventude em suas obras.

Em It – A Coisa vemos crianças abandonadas à própria sorte, visto que poucos adultos aparecem e, quando isso acontece, demonstram certa hostilidade. Ou seja, negligência e abuso. 

Em Christine, o Carro Assassino podemos acompanhar a relação do jovem com o primeiro carro. 

Em Carrie temos a representação de momentos importantes na vida de uma jovem como a primeira menstruação e o baile de formatura. 

Qual a relação entre as três histórias? Uma fase de experiências pessoais importantes para o crescimento e construção da autoestima. 

Carrie tem ainda em comum com O nevoeiro o fanatismo religioso que pode arruinar o amor-próprio de uma jovem ou tirar a vida de um inocente.

Há ainda a relação com a morte abordada em Cemitério maldito (O cemitério). Na verdade a não aceitação da perda, o processo de luto e como lidar com a dor são o grande conflito da história. 

Temas sociais não faltam, pois King sempre usa dramas pessoais para produzir medo.

 

*Danielle Delaneli é professora, atriz, escritora, roteirista e produtora. Formada em Letras pela Universidade Estácio de Sá. Pós-graduada em Cinema e a linguagem audiovisual pelo Instituto Graduarte e em Jornalismo pela Faculdade Faveni.

Muito criativa, desde criança gosta muito de escrever. Tudo graças à sua mãe, responsável por suas maiores paixões: Literatura, Teatro e Cinema que hoje tornaram-se também seu trabalho, e seu pai que sempre a incentivou a estudar para alcançar seus objetivos.


O estigma cigano em Stephen King

Giovanna Venturini*

 

Considerado por muitos um dos grandes mestres do terror, Stephen King lançou seu livro Thinner (traduzido no Brasil como “A maldição do cigano”) em 1984 sob o pseudônimo de Richard Bachman. Na história, Bill Halleck é um advogado obeso que acidentalmente atropela e mata uma idosa cigana, mas que acaba saindo impune — graças à conivência do juiz e do chefe de polícia local. Quando Halleck sai do tribunal, um velho cigano de nariz carcomido toca seu rosto e diz: “mais magro”. A partir deste ponto, o advogado começa a perder peso vertiginosamente e de forma incontrolável. Assim, a trama acompanha Bill em sua corrida contra o tempo, buscando uma forma de encontrar o cigano e anular a maldição antes de emagrecer ao ponto de desaparecer completamente. Aqui cabe um aviso: este ensaio contém spoilers do livro.

Apesar de Thinner se tratar de uma obra de ficção, sua narrativa traz temas pertinentes que encontram ecos no mundo real: vingança, justiça, alteridade, estigma… são assuntos que se entrelaçam na trama, usando como fio condutor uma maldição. A escolha da identidade étnica dos personagens tampouco se dá por acaso: a própria ideia da maldição em questão — e de quem a realiza — está diretamente atrelada ao estereótipo enraizado de que o povo cigano (também chamado de Roma ou Romani) estaria ligado à feitiçaria. 

Contudo, esta é apenas uma das várias ideias preconcebidas a respeito do povo Roma que constituem o imaginário não-cigano (gadjé). No próprio livro em questão, esta não é a única manifestação do estigma cigano: em diversos momentos, King narra através de seus personagens uma história de marginalização envolvendo este povo — ilustrando como os ciganos são vistos ao mesmo tempo com temor e fascínio. 

De forma geral, a estigmatização do povo Romani costuma perpassar estas esferas: vivem à margem da sociedade e são vistos como ladrões, feiticeiros e boêmios, mas ao mesmo tempo compõem um imaginário ligado a mistério e liberdade. Essa presença dos ciganos na história e a forma como as tensões se apresentam entre grupos distintos nos permitem analisar Thinner sob a ótica do autor Erving Goffman, especialmente através do seu conceito de estigma.

Inicialmente, Goffman resume o conceito de estigma como “a situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena” (GOFFMAN, 1980, p. 7). É interessante ressaltar o termo “situação” nessa definição para entendermos uma característica essencial do estigma: ele não é absoluto. Na teoria de Erving Goffman, trata-se de um atributo profundamente depreciativo, mas que só faz sentido se analisado dentro de um conjunto de relações. Assim, o estigma não existe no vácuo: se forma no encontro, no manejo da tensão entre os “normais” e os estigmatizados. 

Estas duas últimas categorias podem ser vistas na narrativa através da constante dualidade entre os “bons sujeitos” e aqueles que estão na margem — especialmente os ciganos. No começo da trama, Bill Halleck está firmemente ancorado do lado dos “normais”: o trabalho de advogado, sua família, seu círculo social, seus hábitos… tudo a respeito do personagem reforça que ele é parte dos “gente fina”. Ao receber a maldição de Taduz Lemke — o velho cigano —, Halleck enfrenta questões que vão além dos problemas físicos causados por seu emagrecimento descontrolado: não somente sua saúde fica comprometida, como sua presença esquelética passa a ser motivo de repulsa das pessoas “comuns”. 

Outro fator importante é o rechaço que o protagonista sofre de seu círculo imediato: toda vez que Bill confessa para sua família e amigos que acredita estar sumindo por ter sido amaldiçoado por um velho cigano, as pessoas ao seu redor acreditam que ele está louco. Assim, ao mesmo tempo em que seus quilos vão desaparecendo, Bill é arrancado de seu lugar de normalidade e colocado forçosamente à margem. 

Uma vez rechaçado por seus iguais, Bill Halleck se vê também como um estigmatizado; em seu estado de magreza extrema, se percebe como uma aberração de circo. E à medida em que busca saber mais sobre sua condição e sobre maneiras de impedir o próprio desaparecimento, o protagonista nota que a maldição de Taduz Lemke se trata de uma vingança feroz; uma forma de fazer justiça pela cigana atropelada — já que a “gente fina” sempre protege a si mesma e trata os ciganos como subalternos. 

A maldição de Lemke vem permeada de uma forte ideia de “gota d’água”; de um povo que sofreu todo tipo de discriminação e não espera encontrar justiça entre os “homens brancos da cidade”, como alguns ciganos se referem a Halleck e pessoas semelhantes no livro. O uso desta expressão na trama também é interessante: enquanto Bill e os “bons sujeitos” se consideram dentro da “norma” do mundo, a frase “homem branco da cidade” acaba colocando esta categoria de pessoa em um lugar de estranhamento, no qual há uma mudança de perspectiva — desta vez, o ponto de referência são os ciganos, e os “estranhos” são os gadjé.

Esta passagem encontra ecos nos estudos decoloniais, especialmente ao tratar do tema da alteridade: definir o outro é definir também a si mesmo, e o estabelecimento daquilo que é “normal” nunca se dá por acaso. Gayatri Spivak aponta como o projeto imperialista se ocupou de firmar o sujeito colonial como “o Outro”, ao mesmo tempo em que estabeleceu a perspectiva dos colonizadores como um ponto de vista totalizante-universalizante (SPIVAK, 2010). No microcosmo de Thinner, podemos levantar possibilidades a partir dessas categorias fundadas no imperialismo para pensar a subalternidade dos ciganos: enquanto Halleck percebe seu modo de vida ao início do livro como uma verdade absoluta, esta perspectiva vai se alterando à medida em que o conflito da trama se desloca para a margem. Inclusive, Bill só consegue começar a resolver sua maldição quando começa a de fato operar na margem: isto se materializa no personagem de Ginelli, o gângster italiano nova-iorquino que acaba por ser seu único aliado.

Para além do estereótipo comum associando ciganos à feitiçaria, King também explora outro lugar-comum ao tratar de uma figura específica: Gina Lemke, a jovem cigana armada com uma atiradeira. A todo momento, a beleza de Gina é ressaltada, assim como efeito que ela tem sobre os homens que encontra: ainda que sequer esteja pensando em seduzir os homens que encontra — na verdade, a emoção mais recorrente da personagem é a raiva —, toda aparição de Gina é traz a visão romântica de que ela é uma cigana misteriosa e voluptuosa, de que todos os homens ficam afetados por sua presença e sentem um enorme desejo por ela. 

O uso do termo “romântico” aqui é proposital: esta figura da cigana que instila desejo remonta ao Romantismo, especialmente à obra Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo — mais conhecida como O Corcunda de Notre-Dame. As passagens que remetem ao quão irresistível é Gina poderiam muito bem falar da própria Esmeralda, e compõem esse imaginário do povo Roma como uma gente exótica e ardente — mais um ponto dentro do eixo temor-fascínio que caracteriza o estigma cigano.

De acordo com os temas trabalhados em Thinner, Stephen King nos faz pensar em algumas questões: até onde uma vingança pode ir? O que ainda pode ser considerado como uma realidade absoluta perante os nossos encontros com o outro? Quando defino a mim mesmo como a norma, o que isso significa para aquele que é diferente? Por meio destas perguntas, o mestre do horror traça uma narrativa que vai além do conflito pessoal de Halleck e Lemke, englobando também os grupos aos quais pertencem. No fim das contas, vemos que maldições são, na verdade, ressentimentos. Se formos seguir a lógica de Thinner, podemos ainda pensar em como esses rancores podem escapar do nosso controle; ou mesmo em como essas maldições adquirem vida própria. 

Referências Bibliográficas

GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1980.

KING, Stephen. A maldição do cigano. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

 

*Giovanna Venturini é mestranda em Direito na Universidade Federal de Juiz de Fora, onde desenvolve pesquisa sobre o direito à educação do povo cigano. É também tanatóloga e pesquisadora na área da morte, vinculada ao LABÔ PUC-SP; nesta área, suas pesquisas se dividem entre patrimônio cemiterial e o impacto do tabu da morte na concepção de monstruosidade. Quando não está pesquisando e nem falando de defuntos, Giovanna é ilustradora, escritora e constante leitora de histórias de terror.


Doutor Sono e o terror de continuar O Iluminado

Cleiton Lopes* Acredito que não é novidade pra ninguém que Stephen King não gostou nada do que Stanley Kubrick fez ao adaptar O Iluminado (1980) para as telas. Entretanto, a obra cinematográfica é uma pérola na história do cinema. É um título sempre presente nas mais diversas listas de melhores, sejam relacionadas ao terror ou…


Como King foi capaz de capturar o horror de ser queer

Junno Sena*   “Então você está com medo de ser?”, pergunta o personagem abertamente homossexual, Machen, para Garton, um homofóbico, em It: A Coisa, sugerindo que o rapaz que o assediou possa, também, ser gay. Existe uma brincadeira com o real palpável nessa cena. Talvez não impacte leitores heterossexuais, mas consegue levar qualquer pessoa LGBTQIA+…


Não, o Stephen King não é supervalorizado

Euller Felix* Não é incomum vermos críticos, seja de cinema ou de literatura atribuírem um valor muito menor do que a maioria dos fãs acreditam que Stephen King tenha. Muitas vezes, essas falas de que o autor não mereça tanto valor pela sua obra vem com uma série de argumentos que ou se referem ao…


Curso: King – da literatura as telas

Em janeiro de 2023 vai acontecer um curso sobre as adaptações e criações de Stephen King ministrado por mim. No curso pretendo abordar desde os filmes clássicos – como O Iluminado, Carrie, Cemitério Maldito, entre outros – até as criações feitas diretamente para a TV, como foi o caso de “Tempestade do Século”. Também vamos…


É horror ou terror?

Euller Felix* Acredito que não seja exagero dizer que muitos dos fãs do gênero já tenham se perguntado a diferença entre os filmes e as definições de “horror” e “terror”. Já ouvi e li em alguns grupos que no final das contas é tudo a mesma coisa, em outros momentos já ouvi que são coisas…


Editorial #1

Está no ar a primeira edição da revista do Necronomiconversa, editada por mim, Euller Felix. Antes de mais nada umas reflexões sobre ter esta revista. Estamos um pouco parados no podcast por inúmeras questões, desde pessoais até questões de dificuldade de manter um projeto de gravação no ar. Mas o horror é um gênero que…


“You can’t tame what’s meant to be wild”: interditos de sexo e morte no subgênero dos filmes de lobisomem

Giovanna Venturini*

Quando analisamos o cinema de horror e seus diferentes subgêneros, um chama a atenção por seu fascínio e longevidade: há décadas e décadas, produzimos filmes de lobisomens. Os anos passam, e sempre temos novas histórias de lobos para contar. Por que nos atraímos tanto por este tema? O que nos fascina nas fronteiras entre o humano e o bestial? Este texto busca explorar estes limites, e entender que tipo de monstro nasce destes encontros. Talvez já esteja evidente, mas fica o aviso: aqui há lobos.

Esta limiaridade entre humano e animal é um tema recorrente para diversos autores das humanidades que buscam entender as formas pelas quais organizamos nosso mundo. Segundo Georges Bataille, um dos principais pontos da existência humana é sua descontinuidade: nascemos e morremos sozinhos, cientes deste fato em meio a uma natureza que não se importa com nossa individualidade – algo de velho tem que morrer para que o novo nasça; e este ciclo eterno não para por qualquer motivo que seja. Este movimento é percebido por nós como uma violência e, a fim de proteger nossa própria organização de mundo, criamos os interditos: uma espécie de tabu que envolve as partes mais irracionais de nosso ser e que mais estão relacionadas a esta natureza violenta; tudo aquilo que nos lembra da descontinuidade de nossa existência nesse ciclo de vida-morte-vida. Estes interditos se aplicam, sobretudo, ao sexo e à morte; e exatamente por este caráter de proibição que possuem, também trazem obrigatoriamente uma grande carga de fascínio (BATAILLE, 2020).

Na teoria de Bataille, estes interditos – que têm vários desdobramentos e muitas vezes se mesclam – servem como uma distinção entre aquilo que é humano e aquilo que é animal: uma maneira de se diferenciar dessa natureza insensível, de tentar estruturar o mundo humano de alguma forma. Giorgio Agamben também parte desta distinção entre humanidade e animalidade, usando as diferentes formas de vida estipuladas por Aristóteles para traçar estes limites, especialmente considerando a dimensão política do homem: bios, enquanto vida dentro da sociedade com as devidas atribuições da pólis; e zoé, enquanto vida meramente posta em termos biológicos e funcionais do organismo. Em sua discussão sobre sacralidade e estado de exceção, Agamben estabelece que o homo sacer é aquele que, por seus crimes, não é mais reconhecido como um humano dotado de bios; ao ter seus direitos suspensos, sobra somente sua zoé, o que o equipara a um animal – e o torna passível de ser morto (AGAMBEN, 2007).

Estes são alguns exemplos de autores que tratam do tema ao longo da História; a condição humana sempre foi um assunto que nos fascinou como um todo. Contudo, pensar sobre a parte animal que existe dentro de nós também gera outros desdobramentos; afinal, se olharmos por tempo suficiente para os limites entre o humano e o bestial, vamos notar que em algum momento estas fronteiras se confundem. Em algum ponto, o homem e a besta se encontram, e os interditos que traçamos enquanto sociedade não são suficientes para conter a violência. E é justamente nesta fronteira que reside a figura do lobisomem.

A maioria das sociedades possui mitos a respeito de humanos que se transformam: de acordo com Montague Summers, a licantropia é um tema tremendamente abrangente – e se considerarmos todos os tipos de metamorfos, o campo se expande mais ainda (SUMMERS, 2003). Este fascínio com os licantropos se manifesta em diversas formas de arte, incluindo o cinema de horror, o que acabou gerando um extenso subgênero de filmes de lobisomem. Dentro desta categoria – que por se tratar de um subgênero muito prolífico e extenso, seria impossível esgotar em um único texto -, vamos analisar três filmes e sua relação com a figura do lobisomem como limiar dos interditos de sexo e morte: The Howling (1981), The Company Of Wolves (1984) e Ginger Snaps (2000).

Começando por The Howling (no Brasil: Grito de Horror), lançado em 1981 – ano de lançamento de outros dois relevantes filmes de lobisomem: An American Werewolf In London e Wolfen – e veio a gerar uma franquia de filmes, sendo um marco do subgênero com suas já clássicas cenas de transformações. Os paralelos entre violência e licantropia já estão presentes desde a primeira cena do filme, com a fala do Dr. George Waggner sobre a tentativa da humanidade em reprimir seus próprios instintos, na qual afirma que não devemos tentar domar os poderes que vêm dessa animalidade. Apesar de Waggner estar falando especificamente de lobisomens (como se descobre ao longo do filme), esta cena encontra ecos em Bataille, que diz que o ser humano arcaico cultuou divindades animais, possivelmente em busca de uma conexão com os poderes associados aos excessos da natureza – violência da qual estas sociedades haviam se afastado anteriormente através dos interditos, mas cuja transgressão ainda era prevista até certo ponto (BATAILLE, 2020).

A história começa acompanhando Karen White, uma âncora de televisão que serve de isca para ajudar a polícia a encontrar o assassino em série Eddie Quist. Após sobreviver por pouco a um encontro com Quist em um cinema pornô (outra aproximação entre sexo e morte), Karen fica muito traumatizada e o Dr. Waggner sugere que esta vá para a Colônia – um retiro no campo para o qual o médico envia seus pacientes em tratamento. Karen e seu esposo Bill vão para o retiro, e uma série de acontecimentos se desenrola a partir deste ponto.

O fascínio pela morte aparece de forma recorrente durante a trama, especialmente ligado ao poder que os lobisomens possuem enquanto híbridos: são retratados como seres violentos, que gostam de matar e têm preferência por consumir carne crua. Enquanto estão na forma humana, usam roupas feitas de pele e cordões de presas de animais. Ademais, os licantropos estão em uma condição de limiar até mesmo em relação a sua própria mortalidade: apesar de não poderem ser mortos por armas convencionais, são vulneráveis ao fogo e às balas de prata – o que, de certo modo, os torna imortais e mortais ao mesmo tempo.

Além do instinto assassino generalizado dos lobisomens do filme, o tema da sexualidade também é um fator de importância: isso se torna especialmente claro no caso de Marsha, personagem que passa toda a trama com a função de femme fatale, dedicando-se especialmente a seduzir Bill. O momento que mais claramente retrata o caráter de limiaridade dos licantropos é a cena de sexo entre Bill e Marsha no meio da floresta (que, por si só, já é um lugar que se afasta da ideia de “civilização” humana e remete ao selvagem – lugar do homo sacer de Agamben por excelência): tendo sido ferido por um lobisomem anteriormente, Bill para de resistir aos avanços de Marsha e consuma sua relação com ela na floresta, com ambos os personagens se tornando cada vez mais violentos durante o ato e gradualmente se transformando em lobos até chegarem no clímax. O próprio ponto do orgasmo também é um tema relevante em Bataille, que o coloca como um momento de transgressão que desafia a ideia de descontinuidade da vida e, portanto, da própria fronteira humano-animal – seja pelo caráter de reprodução, seja pela ideia de exposição da carne e perder-se no outro (BATAILLE, 2020). Este aspecto sexual da figura do lobisomem também se encontra em The Company Of Wolves (no Brasil: A Companhia dos Lobos), filme de horror e fantasia lançado em 1984.

Formado por uma amálgama de histórias que remetem aos contos de fadas clássicos, especialmente Chapeuzinho Vermelho, este filme tem a sexualidade feminina como um de seus temas centrais. Durante toda a trama, a protagonista Rosaleen é constantemente alertada sobre os perigos da floresta e dos lobisomens – sua avó repetidamente diz para que a neta “não confie em homens cujas sobrancelhas se juntam” -, sempre no intuito de preservação da inocência.

Mesmo nas relações de Rosaleen com as pessoas ao seu redor e nas personagens que povoam as histórias da avó, todo o filme é perpassado pelo mesmo aviso: jovens mulheres têm de tomar cuidado com homens que possam abusar de sua inexperiência. É o mesmo aviso contido na história de Chapeuzinho Vermelho, afinal: boas moças devem andar sempre no caminho certo, ou serão devoradas por lobos.
Desta forma, estabelecendo os devidos paralelos com Chapeuzinho Vermelho, o lobisomem neste filme serve como uma representação dos desejos proibidos, especialmente para as mulheres. Na lógica dos interditos, trata mais do sexo do que da morte, e especialmente do tipo de desejo sexual que foge ao controle da mente e ameaça desorganizar todo o mundo racional – ou, no caso das moças, devorá-las por completo. O personagem que mais condensa estes conceitos na trama é o caçador, pelo qual Rosaleen se atrai desde o primeiro momento em que o vê, ignorando os avisos da avó. Posteriormente, quando o caçador se revela como um lobisomem e mata a avó, Rosaleen fica dividida entre se proteger do perigo e ceder a seu fascínio pelo lobo.

A maior parte do filme se passa dentro de um sonho da protagonista: a última sequência mostra o caçador junto a Rosaleen, que também acaba se transformando em lobo. Ambos começam a correr pela floresta, e a eles se junta uma alcateia: nesta cena, os limiares entre sonho e realidade se mesclam, e o filme encerra com Rosaleen acordando assustada com seu quarto tomado por lobos. Mais uma vez, os lobos aparecem nas fronteiras das definições do nosso mundo: sonho e realidade, humano e animal, razão e desejo.
Um ponto interessante que podemos notar até o momento é o papel das mulheres nos filmes analisados: em The Howling (1981), as mulheres da trama ou são retratadas como sedutoras animalescas ou terminam como vítimas indefesas; já em The Company Of Wolves (1984), seguindo os temas de Chapeuzinho Vermelho, a sexualidade feminina está sempre condicionada a uma ameaça externa que tenta sempre acabar com a inocência. Estes papeis femininos se alteram quando tratamos no último filme de nossa análise: Ginger Snaps, de 2000. Mantendo o título original ao ser lançado no Brasil, Ginger Snaps acompanha as irmãs Ginger e Brigitte Fitzgerald, consideradas esquisitas no colégio e fascinadas pela morte. O interdito da morte e o fascínio de sua transgressão se mostra presente desde o início na caracterização das irmãs: ambas têm um pacto de morte uma com a outra (sair do subúrbio ou morrer juntas aos 16 anos), e têm como passatempo fazer sessões de fotos mórbidas.

Além dos temas relacionados à morte e à sexualidade, Ginger Snaps trata também da menstruação (que, em Bataille, também está associada à violência que percebemos nos ciclos da natureza). No filme, a menarca de Ginger coincide com o ataque de um licantropo, e a partir deste ponto seu comportamento começa a mudar: a personagem se torna mais ousada e agressiva, seu corpo sofre uma série de transformações – suas feridas se regeneram rapidamente, surgem pêlos e uma cauda começa a crescer aos poucos -, mas uma das mudanças mais relevantes é seu despertar sexual.
Apesar dos outros filmes que analisamos também tratarem do impulso sexual e de morte, Ginger Snaps chama a atenção por tratar destes temas com um protagonismo feminino muito forte: além de tratar da menstruação, o filme não coloca suas personagens de forma unidimensional. Brigitte reage às transformações da irmã ao mesmo tempo em que tenta se entender neste novo mundo que se apresenta, não sendo somente uma vítima indefesa. Ginger não se resume a uma femme fatale e sua sexualidade não é algo a ser protegido do lobo: ao transitar nos limiares que a figura do lobisomem pressupõe, a personagem é dona de seus impulsos e se entrega a eles. Mesmo nos pontos em que Ginger se relaciona sexualmente com outros personagens, o foco não é nos homens, mas no exercício de sua própria sexualidade. Mesmo sem controle das transformações que sofre, Ginger ainda tem agência e protagonismo – afinal, ela é o lobo.
Como dito antes, seria impossível esgotar todo o subgênero de lobisomens em um só texto; a ideia aqui foi explorar as diferentes formas que a limiaridade da figura do lobisomem é tratada nos filmes escolhidos. Talvez uma das razões pelas quais este subgênero do horror seja tão prolífico se encontre exatamente nas questões que a ideia do lobisomem levanta: o que nos faz humanos? O que é que nos separa do que há de bestial, e como nossos impulsos desafiam estes limites? De quais violências a besta dentro de nós é capaz? O cinema de horror não estabeleceu uma resposta pronta, mas talvez a frase de The Howling que dá título a este texto nos ajude a pensar: “you can’t tame what’s meant to be wild, Doc. It just ain’t natural.”¹

NOTAS

1 – Tradução livre: “você não pode domar o que deveria ser selvagem, Doutor. Não é natural.”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Vol I. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2007.BATAILLE, Georges. O erotismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
SUMMERS, Montague. The Werewolf in Lore and Legend. New York: Dover Publications
Inc., 2003

* Pesquisadora, escritora e ilustradora. Mestranda em Direito (UFJF), pós-graduanda em Direito Penal e
Criminologia (Introcrim) e pesquisadora do Grupo de Pesquisa Estudos Sobre Morte e Pós Morte (LABÔ PUCSP). Parte de suas pesquisas tratam sobre o tabu da morte e seu impacto nas concepções de monstruosidade, especialmente na literatura e no cinema de horror.