Nas programações de festivais como o CineFantasy, alguns filmes já chegam com expectativas por conta da presença de certos nomes na equipe de produção. “Ravina”, por exemplo, entrou nessa condição por ser o longa de estreia de Balázs Krasznahorkai, assistente de direção do premiado “O Filho de Saul”. Na trama, Bailant é um obstetra húngaro prestes a se tornar novamente pai, que volta à sua cidade natal no nordeste da Romênia para reencontrar o primeiro filho, abandonado 17 anos antes.

De certa forma, o primeiro trabalho como diretor de Balázs Krasznahorkai remete a “Manchester à Beira Mar”. Em ambas as obras, os protagonistas precisam cuidar de um familiar mais jovem com quem eles não conviviam por muito tempo e lidar com um passado desagradável. Se Kenneth Lonergan busca uma carga emocional muito intensa, Krasznahorkai opta pela contenção das emoções e pelo distanciamento sentimental dos personagens. São esses estados que norteiam a postura de Bailant de ir para a comunidade onde seu pai foi enterrado, sua primeira namorada também faleceu e seu filho Simon vive sem vínculos com pai – inicialmente, Bailant procura um guardião para deixar Simon até que possa organizar sua vida com a namorada grávida.

O que seria a princípio a tentativa de um pai se reconectar com o filho, ganha fatores complicadores. Simon se ressente da partida de Bailant e de todo o tempo em que ficou privado de uma figura paterna (resultando na dor de ver a mãe abandonada e na revolta de ser jogado aos cuidados de uma a outra pessoa). Além disso, o jovem se envolveu com uma gangue local, trabalhando para os criminosos e devendo dinheiro ao líder Dumitru, em função da desestruturação familiar. Então, o protagonista não só precisaria se reconciliar com o filho como também protegê-lo do mundo do crime – somando-se a isso, Bailant possui seus próprios conflitos com Dumitru, relacionados a disputas por um terreno (mesmo que não seja um aspecto tão desenvolvido).

A distância entre pai e filho parece ser simbolizada pelo início de muitas cenas, nas quais Bailant aparece, em geral, se deslocando de carro ou a pé (quando viaja até sua terra natal e todos os momentos em que transita pela região procurando Simon ou outros moradores). Enquanto está na comunidade, Bailant vai a uma festa onde o filho tocava em uma banda; procura alguém com quem possa deixar Simon até conseguir cuidar dele; segue o filho por vários lugares para tentar se entender com ele; procura Dumitru para pagar a dívida de Simon e livrá-lo de qualquer perigo maior, além de várias outras situações semelhantes. Porém, à medida que a narrativa avança, o recurso de colocar o protagonista quase sempre em movimento não conserva o efeito dramático de um pai tentar alcançar física e emocionalmente seu filho e acaba soando apenas como uma decisão repetitiva e esvaziada para inicar as sequências.

Sob outra perspectiva, o personagem que se desloca é uma estratégia que sofre também de um uso pouco expressivo dos cenários. Em geral, as paisagens das florestas surgem simplesmente como pano de fundo, pouco interferindo nos conflitos entre os personagens ou interação dessas figuras com o espaço ao redor. Curiosamente, a narrativa trabalha a natureza de forma mais interessante quando a ação em cena está fixa e, por algum motivo, Baliant e Simon não podem ou não estão em movimento: principalmente, quando eles passam a noite dentro de um abrigo na floresta e conversam mais pacificamente sobre o passado e quando ficam presos no interior de uma ravina, cabendo ao pai cuidar do filho e tentar se aproximar emocionalmente dele. Por sinal, é essa passagem do roteiro que dá nome ao filme e representa o conflito familiar central.

Entretanto, há ainda outro questionamento possível para a forma como a produção lida com os desentendimento entre pai e filho e as dores emocionais de um passado povoado de feridas. Em muitas cenas, fica a sensação de que os conflitos dramáticos são simplificados e não conseguem atingir o espectador de modo a tornar alguns ressentimentos passados mais palpáveis. Por  exemplo, as brigas e o mal-estar na relação de Baliant e seu pai parecem superficiais, os atritos com Dumitru ficam apenas sugeridas sem maiores desenvolvimentos e as próprias questões do namoro de Simon são inseridos abruptamente sem valorizar o impacto do dilema vivido pelo casal. Apesar de o diretor definir que a narrativa não apresentaria uma força emocional intensa e, na realidade, seria contida, essa opção pode afetar os efeitos que os conflitos poderiam ter e sua capacidade nos deixar mais envolvidos com os personagens.

Ainda que “Ravina” por vezes enfraqueça a relação entre os conflitos emocionais e as locações ocasionalmente, o foco na interação entre pai e filho tem o seu valor para o filme. Esse aspecto enriquece a experiência cinematográfica por mostrar como Baliant e Simon atravessam um tortuoso caminho de brigas, aproximações, afastamentos e reencontros, que humaniza os dois e representa a complexidade das relações familiares – vemos isso a cada diálogo menos conflituoso entre eles que é sucedido por cenas em que um deles desagrada o outro com alguma atitude menos amistosa. Mesmo assim, a estreia de Balázs Krasznahorkai na direção de longas indica o que é: uma primeira experiência que não é perfeita nem descartável, mas está em processo de aperfeiçoamento.